sábado, 2 de dezembro de 2017

Amor do passado II

  Fiquei a vê-la desaparecer atras do portão que dava acesso à rua, através da janela do quarto. Ainda estava pasmado com o que acabara de acontecer, mas havia algo em mim que me dizia que isto não iria ficar por aqui ainda iria ficar surpreso com mais alguma coisa. O meu padrinho, que também era o meu melhor amigo, estava ainda mais incrédulo do que eu, mas parecia mais indignado, afirmava e voltava a repetir que não sabia de onde tinha aparecido a rapariga que invadiu o quarto, e que não sabia de onde a minha noiva tinha tirado aquelas ideias absurdas. Mas, havia algo naquela postura que me dizia que ele não estava a contar tudo.
 Aquela noite e os restantes dias daquela semana, foram os piores da minha vida, eu acho, que, só despi o fato de casamento ao fim de dois dias, tal não era o meu estado, os meus pais já não sabiam o que me dizer nem o que fazer, eu descai cada dia mais, afundava-me na bebida para afogar o desgosto, o meu quarto estava de tal forma revoltado que parecia que tinha havido uma guerra lá dentro. No chão estavam espalhadas todas as fotos nossas, todos os presentes que ganhamos estavam dentro de sacos do lixo, os seus pertences eu coloquei-os em cima da cama que estava vazia há imenso tempo. Mas quando estava quase a entrar num precipício, sem volta, os meus pais lá conseguiram tirar-me do meu quarto e fazer-me voltar à vida.
 Passado algumas semanas, finalmente resolvi ir tentar perceber o que raio se tinha passado. Sem me fazer anunciar fui procurar a pessoa que mais mexia comigo, acabei por a encontrar na casa dos seus pais, inicialmente não estavam com muita vontade de me deixarem falar com ela mas lá permitiram, achavam eles que se nós conversássemos cada um podia seguir as suas vidas. Ela encontrava-se no quarto, e estava pior que eu, encontrei-a debruçada sobre si própria, como se de uma criança se tratasse. Não falamos muito, os soluços tanto de um como do outro preenchiam o vazio e o silêncio do quarto, mas nas poucas palavras que ela disse foi, que o, que existia entre nós tinha morrido naquele dia e que não iria ter volta a dar.
 Não era bem o desfecho que eu tinha em mente, mas também não podia fazer nada, se ela pensava que não podíamos continuar com esta relação eu só tinha que respeitar. Com isto, resolvi seguir com a minha vida sozinho para o passado não voltar atormentar ninguém.


 Os anos passaram, e a minha vida tomou um rumo completamente inesperado, o trabalho obrigou-me a passar a vida em viagens o que até facilitou a árdua tarefa do coração de esquecer, mas também complicou qualquer tipo de relação séria que viria a ter. Quando o destino se encarrega de me trazer de volta para a minha terra, foi como entrar num filme em que tudo o que era uma recordação, de quem eu era e de … Como um doido que gosta de sofrer fui ao bar que tudo mudou na minha vida, entrei observando o espaço que a esta altura tinha sofrido umas remodelações, por sorte o meu antigo spot estava livre, por isso aproveitei e fui ocupa-lo. Ao fim de algumas bebidas e de alguma conversa com velhos amigos, quando o meu olhar se cruza com o olhar que me roubou os sonhos no passado, por um momento até fiquei contente em vê-la, mas ao olhar com mais atenção qualquer alegria que tenha demonstrado desapareceu. Ela não vinha sozinha, estava acompanhada pelo que antes tinha sido nosso padrinho, que pela forma como lhe tocava não seria apenas amigo mas sim algo mais. Como era possível a pessoa em que eu mais tinha confiado na vida, que até tinha tratado como um irmão andava agora com a pessoa que mais amei na vida. Agora é que tudo começou a fazer sentido, a reação dele aos acontecimentos do dia do casamento, o seu desaparecimento depois, as peças iam se juntando como um quebra-cabeças.
 Ela deu para perceber que não tinha ficado indiferente há minha presença mas nem se atreveu aproximar da mesa em que me encontrava. O seu acompanhante é que parecia não ter gostado muito da minha presença, talvez ele pensa-se que eu me tinha ido embora de vez mas parece que ainda não foi desta que lhe fiz a vontade. Eu como sempre fui meio desbocado, ao aproveitar que me ia embora resolvi ir cumprimenta-los e dar-lhes a minha “bênção” mas também não queria ficar lá a fazer serão. Já na rua em direção ao carro, senti que alguém vinha atrás de mim, era ela, vinha apressada a tentar apanhar-me. Ela queria explicar-se, dizer que não tinha sido nada planeado, mas que simplesmente tinha acontecido que ele tinha apoiado muito a superar a nossa história. Eu não queria ouvir o que ela tinha a dizer, não queria remexer na ferida, mas ela não parava de se justificar. Ela queria saber se eu não ficava chateado por ela ser feliz, eu estava contente que ela estivesse bem mas ver a pessoa que mais amas com outro era algo que ainda magoava e muito.
 Farto de abrir mais a ferida entrei no carro e a deixei falar, eu estava quase a arrancar quando para minha surpresa ela entra também no carro e … beija-me como nos velhos tempos em que ainda eramos um casal. Eu que ainda a amava não acreditava no que tinha acontecido e ainda mais parvo fiquei quando ela me pede para arrancar pois queria seguir a vida onde nós a tínhamos deixado no passado. Pois por mais que o outro a fizesse feliz, ele não era o grande amor da sua vida, porque para ela o seu amor só poderia ser entregue a quem realmente a amou e fez tudo por ela.
 Depois destas palavras dela e do seu pedido, eu não pensei em mais nada, aproveitei o que o destino tinha voltado a por no meu caminho e arranquei com o carro em direção ao futuro da minha felicidade.